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Botafogo, um marco familiar
Moro em Botafogo, há pouco mais de dois anos.
Sempre tive em mente que o bairro era complicado, com ruas engarrafadas,
estreitas e com pouca infra-estrutura, bastava chover e o bairro ficava
inundado. Não imaginava que poderia encontrar um bairro alegre, com pessoas
maravilhosas e principalmente, um local tranqüilo para morar e descansar.
Mudei para a Rua São Clemente em junho de 2006 e posso afirmar que mudei
drasticamente a minha maneira de pensar.
Primeiro, descobri que o prédio em que moro
tem mais de sessenta anos e foi construído na época que era incomum os
prédios tomarem o lugar dos casarões tradicionais do bairro. Depois, veio a
parte mais importante, nas conversas em família.
Descobri que, no local do atual Bar 98,
outrora existiu uma vila com poucas casas humildes e habitadas por
trabalhadores no comércio da cidade. Nessa vila, como muitas que existiam no
bairro, nasceu uma pessoa muito marcante da minha família, meu sogro. Veja
quanta coincidência, o bairro que eu achava complicado e sem graça havia
decidido o futuro da minha vida, em um dia de dezembro de 1923.
Passamos a falar sobre o bairro em nossas
conversas de domingo, a partir daí, comecei a entender um pouco da história
de Botafogo e das suas amenidades. Quem atualmente poderia imaginar um jovem
pulando o muro do Guanabara, em seus famosos bailes, trajando smoking e sem
um tostão no bolso ou então um menino apaixonado, que adentra uma casa,
durante a madrugada, para roubar um beijo da namorada. Atualmente, seria
confundido com o homem-aranha e certamente seria preso.
Quanta coisa me ligava ao bairro e eu não
sabia, simplesmente por ignorar uma passagem marcante na vida de uma pessoa
tão ligada e respeitada por mim.
Em dezembro deste ano, outro fato marcante em
nossa família, estabelece a ligação com o bairro. Desta vez, a morte de um
ilustre botafoguense, mineiro de nascimento, carioca por opção e morador do
bairro durante 40 anos. Perdemos para Deus uma pessoa tão querida por nós e
seus vizinhos. Um homem incomum, que vivia de maneira simples em meio às
suas lembranças do tempo da política, da época dos tribunais e do pesadelo
da revolução. Era um homem bom e honesto e quem o visse passar não
imaginaria que aquele homem franzino havia sido um incansável defensor do
direito. Um brilhante advogado, que conquistou o respeito de seus pares,
clientes, amigos e familiares. O Dr. Astholfo Dutra Nicácio, tinha 87 anos e
merecia viver mais, não por egoísmo da família, mas pelo que contribuía com
seu conhecimento e sabedoria para orientar e servir de exemplo a todos que
tinham o privilégio de conviver com ele.
por Milton Ribeiro
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